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O que há de bom em Before I Fall? Bullying, Adolescentes, Supercombo, Viktor Frankl, Sócrates e o que mais?

“Before I Fall” (Antes Que Eu Vá, 2017) é um filme para jovens, interpretado por um elenco jovem e que aborda os comportamentos típicos da adolescência. No auge das discussões, o tema do bullying e as atitudes de jovens opressores e oprimidos é nitidamente o carro chefe apresentado pelo roteiro do filme. Todos esses elementos poderiam resultar num filme mais-do-mesmo, mas um olhar que vai além do que se vê será capaz de perceber mensagens que não se restringem aos jovens, mas a qualquer pessoa, especialmente do nosso tempo. E foi por estas mensagens que eu resolvi escrever este post, antes que eu vá.

Nota: este texto pode conter spoilers do filme. Leia por sua conta e risco.

“Before I Fall” fala sobre autoconhecimento, sobre ser autêntico, sobre saber colocar-se no lugar do outro, sobre compaixão, sobre dar valor às pequenas coisas da vida, sobre valorizar as pessoas que estão sempre ao seu lado, sobre a capacidade de seguir em frente, sobre aceitar o que não pode ser mudado e mudar de perspectiva, sobre felicidade.

Samantha Kingston é uma bela adolescente do último ano do Ensino Médio, que possui amigas inseparáveis, é socialmente aceita na escola e tem um namorado bonito popular. Ela possui todos os ingredientes que uma jovem de sua idade poderia querer. Ainda assim, é possível perceber que a protagonista do filme parece deslocada em algumas situações de sua vida, mesmo tendo tudo o que poderia desejar. Não se trata de um deslocamento em relação ao outro ou ao meio seu meio, mas em relação a si própria. É como se a pessoa que escolheu ser não se encaixe com a pessoa que ela, de fato, é. Mesmo cercada por pessoas que gosta e fazendo as coisas que gosta, não é difícil supor que ela não é – ou não quer ser – aquilo que se tornou. Mas quem seria ela? “Quem sou eu”? É como se a música de sua vida tivesse uma nota desafinada, mas que ela ainda não tem a capacidade de perceber e afinar.

É normal do ser humano projetar ideais para sua vida. Não quero me referir aqui, necessariamente, a ideais grandiosos, mas a situações simples também. Ideal é aquilo proveniente da ideia, do pensamento. Aquilo que admiramos – valores, comportamentos, significados, etc – acaba por se tornar uma referência, uma ideia ou um ideal para nossas vidas. No entanto, todas essas referências admiráveis são externas, ou seja, são da natureza do outro.

Cada ser humano é único e traz consigo muitas potencialidades e limitações. Viktor Frankl, médico psiquiatra austríaco e fundador da logoterapia, defende que no ser humano exista um desejo e uma vontade por encontrar sentido para sua vida. Quando baseamos nossa existência unicamente a partir da referência do outro, sem fazer o movimento de conhecer-nos a nós mesmos, entender o que somos e o que podemos/queremos ser, nossa música desafina.

Em tempos de vida multi-tela, ultra conectada e que o silêncio da mente é quase impossível, essa notinha desafinada, esse estranhamento do ser normalmente é ignorado e sufocado por entretenimento dos mais variados tipos (jogos, festas, bebidas, redes sociais, tv, filmes, séries, religião, etc, etc, etc). Com tanta coisa para ocupar a mente, mal temos tempo ou disposição para olhar para dentro e tentar entender esses estranhamentos que sentimos em nosso interior, para afinar aquela notinha que está fora do tom. Esse movimento para dentro dá muito trabalho.... Drummont nos falou sobre isso em “O Homem e as Viagens” (só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo). Divertir-se é mais fácil e gostoso, então, segue o show!

Entregamo-nos à rotina, ao entretenimento, ao trabalho ou ao que quer que seja para tentar ignorar essas notas desafinadas e tentar ser felizes ou, ao menos, amenizar essa dor velada de ser aquilo que não somos ou não nascemos para ser. Ligamos o piloto automático e seguimos em frente, levando uma vida de superficialidade e efemeridades. Às vezes, só nos damos conta disso quando uma tragédia acontece em nossa vida para, finalmente, pararmos e olharmos para dentro. Às vezes é preciso que a música pare para afinarmos nosso instrumento.

Uma proposta bacana do filme é transformá-lo em uma metáfora do mito grego de Sísifo. No mito, o personagem é condenado a empurrar uma grande pedra até o alto do monte na terra dos mortos, de onde a pedra rolava até a base e ele deveria empurrá-la novamente. É exatamente isso que acontece com nossa protagonista do filme (sim, eu ainda estou falando do filme hehe). Depois de um acidente, sua vida torna-se um loop infinito de seu último dia de vida. Ao final deste, tudo começa de novo, do mesmo lugar.

A personagem vive, então, o tormento de perder o controle de sua vida; ela quer seguir em frente, mas o destino não permite. Este é o grande dilema pelo qual todos passamos – ou passaremos – em algum momento da vida: reconhecendo que não temos mais controle sobre nada nesta vida, teremos a coragem de fazer a dificílima e dangerosíssima viagem para nossas inexploradas entranhas ou padeceremos diante de um mundo caótico, seguindo em frente com o piloto automático ligado, anestesiando nossas mentes com diversões vazias?

Depois da tragédia, a personagem vive comportamentos típicos da vida humana e não só de uma adolescente. O primeiro comportamento é o da apatia. Ainda tentando processar o que está acontecendo, ela paralisa e sofre; depois vem o sentimento de revolta contra tudo e contra todos. Ela escolhe então ser dona de si mesma e de seu próprio destino fazendo o que bem entendesse, falando o que desse na telha, vivendo uma vida #semfiltro #ligouofodase.

O caminho da solidão e da indiferença ao outro leva o filme a uma das mensagens que considerei mais importantes da história: não se vive a felicidade sozinho; não é possível ser feliz sem que os outros à sua volta estejam também felizes. Felicidade plena não é algo que se toma posse, mas algo que se compartilha. Este entendimento leva a personagem a refletir sobre a vida que levava e a rever todas as suas atitudes até o dia da tragédia e por todos os dias seguintes que se repetiram em seu “castigo de Sísifo”. Ela finalmente parou para afinar seu instrumento e colocar as notas foras no tom.

Seus erros e acertos a tornam uma pessoa sensível ao outro, que compreende, admira e respeita as diferenças e que tem plena consciência do que e quem ela é. Como defende Viktor Frankl, ela encontrou o sentido de sua vida. Como orientou Sócrates, ela conheceu a si mesmo. Isso é tornar-se livre para descobrir a perene, insuspeitada alegria de con-viver.

 “Before I Fall” é um filme de autoajuda que se utiliza da mesma estética utilizada pelos filmes de seu gênero – argumento, caracterização dos personagens, estereótipos, conflitos – mas que sai do lugar comum ao trazer uma narrativa que nos leva a refletir, com muito mérito, sobre questões existenciais do ser humano.

E você, já viu esse filme? O que achou de suas mensagens?

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Tags: queen, supercombo, filme, cinema, análise, viktor frankl, drummont